Arcos



Publicação detalhada
Artigo: BRINQUEDOTECAS HOSPITALARES: uma análise do direito das crianças à brincadeira - Educação Física

Autor(es): Mariana Dias Venancio

 

 Mariana Dias Venancio

Orientação: Profa Vânia Noronha

 

RESUMO

Esta pesquisa se propôs a investigar as brinquedotecas hospitalares sob a perspectiva do direito das crianças à brincadeira. Para isso foi necessário compreender como são estruturadas e como se dá o funcionamento das brinquedotecas nas redes hospitalares públicas e privadas de Belo Horizonte. A instalação da brinquedoteca em hospitais é amparada pela lei Federal 11.104, de 21 de março de 2005, a qual dispõe sobre a obrigatoriedade de instalação de brinquedotecas nas unidades de saúde que ofereçam atendimento pediátrico em regime de internação. Consideramos a brinquedoteca um equipamento de extrema importância em hospitais de internação infantil, pois proporciona à criança adoecida um espaço destinado ao brincar, com o objetivo de garantir o mínimo de experiências relacionadas à infância, pois estas no ambiente hospitalar são praticamente nulas. Tal equipamento contribui para um tratamento mais afetivo e humanizado, auxiliando na recuperação das crianças. Para a realização da pesquisa, foi feito um mapeamento das brinquedotecas hospitalares de Belo Horizonte e escolhida uma para a realização de um estudo de caso. O estudo de caso possibilitou conhecer o funcionamento e estrutura de uma brinquedoteca hospitalar, e abriu os caminhos da compreensão de como esse equipamento garante às crianças o direito ao brincar e auxilia em seu tratamento e recuperação. Espera-se que esta pesquisa amplie a discussão sobre o direito da criança à brincadeira e dos diferentes sentidos e significados do brincar para os sujeitos, contribuindo para reflexões no campo da saúde, da educação física, do lazer, dentre outros.

Relato de experiência: visita do Instituto São Rafael à PUC Minas

Aluno: Marcelo Morato Lins

 

O Instituto São Rafael é uma escola da rede estadual de ensino de Minas Gerais, especializada em Educação e Reabilitação de deficientes visuais, na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. Fundado em 1926, atende hoje aproximadamente quinhentos alunos.

Desde o segundo semestre de 2008, as disciplinas “Estágio de Bacharelado: Adulto, Idoso, Pessoas com Deficiência” e “Educação Física: Pessoas com Deficiência”, ambas do sexto período do curso de Educação Física da PUC Minas e ministradas pela professora Cláudia Barsand de Leucas, recebem deficientes visuais que são alunos do Instituto São Rafael para uma manhã de práticas e experiências corporais. A disciplina “Educação Física: Pessoas com Deficiência” é comum aos cursos de Licenciatura e Bacharelado e, desta forma, existe uma diversidade de abordagens e apropriações do evento que faz com que as experiências vividas sejam ainda mais enriquecedoras.

Apesar de o evento durar apenas poucas horas de uma manhã de sábado, a preparação foi feita ao longo de várias aulas da disciplina, para que os alunos do curso de Educação Física chegassem melhor preparados para lidar com uma realidade que seria nova para a maioria.

Assim, foi preciso começar pela teoria. Caracterizar e entender o público com o qual iríamos interagir foi o primeiro passo. Segundo o MEC (1994), “o termo deficiência visual, refere-se a uma situação irreversível de diminuição de resposta visual em virtude de causas congênitas e/ou hereditárias, mesmo após tratamento clínico ou cirúrgico e uso de óculos convencionais”. A cegueira é, então, a mais grave das deficiências visuais, se caracterizando desde a perda da percepção luminosa até a ausência total da visão.

Foi necessário também desconstruir algumas ideias que tínhamos a respeito dos deficientes visuais e da cegueira. A principal delas foi o erro em considerar que nenhum cego se vale de estímulos visuais para interagir com o meio em que se encontra. Existem diferentes níveis de cegueira, com comprometimentos diversos da acuidade visual e do campo de visão, e isto terá impacto direto na vida da pessoa com deficiência visual.

Outro conceito que teve que ser revisto foi a própria terminologia. A cegueira é uma das várias deficiências visuais, de forma que o indivíduo cego pode também ser referido com um deficiente visual. Porém, para que haja maior precisão e também para evitar a carga negativa que a palavra “deficiente” possa carregar, as pessoas com cegueira preferem ser chamadas exatamente de cegos, e não de deficientes visuais.

Com isto colocado, surgiram as principais questões: como os professores e profissionais de Educação Física podem contribuir para a saúde e a qualidade de vida destes sujeitos? No que difere a nossa atuação profissional quando a comparamos com outros públicos? Quais conteúdos podem e devem ser trabalhados com eles?

Sabemos que várias modalidades esportivas podem ser praticadas por indivíduos cegos. As mais procuradas por este público são o atletismo, o ciclismo, o judô, a natação e a equitação. Além destas, existem modalidades especificas para estes indivíduos, como o goalball; ou fortemente adaptadas, como o futebol de 5.

Porém, tínhamos consciência de que nosso público seria ainda mais distinto. Teríamos que pensar atividades que pudessem ser proveitosas para indivíduos cegos de ambos os gêneros, de várias faixas etárias e com diversas características que tornariam o planejamento e a execução do evento desafiadores. Alguns apresentavam obesidade, fato que pode estar relacionado à modalidade reduzida. Outros, limitações como o diabetes, diretamente ligado ao quadro de cegueira. Havia também pessoas com déficit cognitivo, que demandariam ainda mais nossa atenção.

Em uma das últimas aulas antes do evento, um teste importante: vivenciamos a experiência de sermos vendados, simulando a condição da cegueira (figura 1). Pudemos sentir um pouco das dificuldades enfrentadas pelos cegos, e também experimentar a condição de acompanhante, tal como faríamos dias depois.

Para o dia do evento, a turma se dividiu em grupos, cada qual responsável por uma parte da organização: coordenação geral, recepção, planejamento das atividades, lanche, registro audiovisual etc. Apesar da divisão de tarefas, foi enfatizada a importância de acompanhar os convidados durante a prática das atividades, para que todos os discentes pudessem tirar máximo proveito das experiências.

O evento foi realizado no dia 6 de abril de 2013. Os estudantes chegaram ao Complexo Esportivo da PUC Minas às 8h da manhã. Os convidados (26 alunos com deficiência visual e cinco acompanhantes) chegaram às 9h, em um ônibus da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Ao contrário do que ocorreu nos eventos anteriores, um aluno do grupo da recepção acompanhou os convidados no ônibus desde a saída do Instituto São Rafael até a volta para o mesmo local. Isto foi pensado para garantir a fluidez e a pontualidade do evento.

Ao chegarem, cada cego foi recebido individualmente por um estudante. Os primeiros momentos foram marcados por grande curiosidade de ambos os grupos, com apresentações formais e muitas perguntas. Foram também os momentos em que tivemos o maior zelo com nossos convidados, por não saber exatamente do que eram capazes e em quais situações demandariam nossa ajuda (figura 2). Nossa preocupação com eles, principalmente nos minutos iniciais, beirou o excesso.

Ao conduzir os convidados para a área das atividades, as primeiras surpresas: muitos dos cegos tinham grande capacidade de se localizar e de se locomoverem, por vezes sem indicação verbal. Alguns deles já haviam participado de encontros anteriores, no mesmo local, e alguns possuíam percepção luminosa. Porém, nem sempre os fatores estavam em coincidência: alguns realmente conseguiam se situar se guiando pela audição, tato, olfato e propriocepção, mesmo estando em um ambiente completamente estranho.

Depois, as primeiras atividades: experiências lúdicas na área de aparelhos de ginástica, com o trampolim (figura 3) e o mini-trampolim (figura 4), e um jogo chamado por nós de “modelagem humana” que consistia em fazer os convidados detectarem, através do tato, a posição em que um modelo se encontrava e tentar reproduzi-la em outro modelo.

As duas atividades ocorreram simultaneamente, com os convidados livres para escolher de qual delas participaria, sendo possível participar de ambas caso desejasse. A maioria demonstrou se sentir mais atraída pelas atividades de ginástica, mas houve bastante participação em ambas.

Pudemos observar uma característica importante durante o desenvolvimento da atividade “modelagem humana”: os convidados que possuíam alguma acuidade visual tentaram se valer desta condição para terminar a tarefa mais rapidamente. Porém, a suposta vantagem se mostrou uma desvantagem: aqueles que utilizaram somente o tato conseguiram maior efetividade na realização das tarefas.

Após aproximadamente trinta minutos, as primeiras atividades foram concluídas e os convidados foram conduzidos à sala de dança, onde desenvolvemos atividades envolvendo ritmo, música e danças propriamente ditas (figura 5). Alguns dos convidados se mostraram resistentes à participação nestas atividades. Em alguns minutos, porém, todos se mostraram envolvidos e participativos. Esta etapa também durou aproximadamente trinta minutos.

A última atividade realizada consistiu em um relaxamento (figura 6). Alunos e convidados, utilizando bolas de tênis, foram orientados a fazerem massagens no próprio corpo e no corpo dos companheiros. Pela natureza da atividade, este foi o momento onde houve maior interação e proximidade entre os participantes.

Após o encerramento das atividades, houve momento para reflexão e confraternização. Os convidados expressaram satisfação com as atividades. Um deles questionou se encontros como aquele poderiam ser mais frequentes, ou durarem mais tempo. Alguns dos convidados se emocionaram ao relatar as experiências vividas. Por fim, foi oferecido um lanche para todos os participantes, com escolhas pensadas para seguir a dieta dos diabéticos.

Posteriormente, tivemos oportunidade para discutir o evento, somente entre os estudantes e a professora. Algumas observações interessantes foram feitas:

- o evento tinha como principal função curricular proporcionar o primeiro contato entre os estudantes e as práticas corporais para pessoas cegas, e cumpriu integralmente o objetivo;

- embora todos os convidados tenham participado de pelo menos uma atividade, pudemos perceber que para muitos deles o aspecto da interação social era mais importante do que a questão da prática corporal;

- somente com a experiência podemos ter a exata noção das demandas deste público em específico. Nesta primeira intervenção, em função do ineditismo, às vezes cercamos os convidados de cuidados desnecessários bem como também deixamos de cumprir as expectativas em determinados momentos.

Acredito que os momentos vividos naquela manhã serão importantes em nossa vida profissional. Ao lidar com cegos, tivemos a oportunidade de perceber, de forma ainda mais evidente do que o habitual, características importantes no exercício de nossa profissão: a necessidade de individualizar a forma e o conteúdo das atividades corporais; o respeito ao próprio corpo e ao corpo de alunos e colegas; e, sobretudo, a importância de humanizar as práticas corporais.



Local:

Data de publicação no site: 26/08/2013

  Av. Dom José Gaspar, 500 - Coração Eucarístico - Belo Horizonte - MG CEP 30535-901 - Telefone geral: (31)3319-4444